Bodinote
Há neste mundo, já tão carente,
uns espantalhos, parecem gente.
Quando um deles nos aparece,
cada chilreio vai-se, esmorece.
Eu conheço um, o Bodinote,
dentro da boca traz um chiquote.
Olha pr'a ti de olho azedo,
sempre a tentar meter-te medo.

Ele, coitado, pr'articular,
só consegue fazê-lo a gritar!
De vez em quando, para variar,
manda-te um « rrrhó »
e outro « rrrhó »,
mostra de dó? É... se calhar...

Quando ele passa, bem direitinho,
pronto a calar mais passarinhos,
penso pr'a mim, oh Bodinote
vá, desce-lá do teu escadote.
Coisa incrível este fulano,
d'aparência um ser humano,
atira ao ar, tal um boneco,
um grande chio mal um aperto.

Ele, coitado, pr'articular,
só consegue fazê-lo a gritar!
De vez em quando, para variar,
manda-te um « hiii »
e outro « hiii »,
mostra que ri? É... se calhar...

De madrugada, carcereiro,
tem por cadeia o mundo inteiro.
Quando adormece, cuida, é certo,
que fique sempre um olho aberto.
Tenho a certeza que o Bodinote,
mesmo deitado no seu caixote,
há-de tentar, para assustar,
d'abrir a boca pr'articular!

Ele, coitado, quando acabar,
terá para o acompagnar,
de vez em quando, um chilrear,
no ar um « fiu fiu »
e outro « fiu fiu »
tradução:
« é para ti ! » « vai-te lixar! »

Natália